terça-feira, 3 de dezembro de 2024

HISTÓRIAS DE SOBREVIVENTES DOS 87 ESCRAVOS - JACINTA SOUZA

 História de Jacira de Souza

“Eu e minha irmã Inácia.

Somos as únicas sobreviventes dos antigos 87 escravos de dona Jacinta, não sei a minha idade, só sei que era menina ainda quando da guerra que chamam de rosas e desde aqueles tempos sempre acompanhei e tomei parte nas nossas festas que eram tão boas  e que foram trazidas por nossos pais do Congo. A festa sempre teve rei e rainha, o juiz da vara, a juíza do ramalhete, o capitão da bandeira e o procurador da festa, que era animada por muitos instrumentos: Cange, trombeta, tambores, chocalho e depois também violão, executavam o quicumbi, e o samba, danças principais da festa.

Nas procissões toda diretoria usavam vestimentas especiais e coroas, as moças na frente faziam as evoluções e manobras e os outros acompanhavam. O trajeto da procissão era da casa grande até a capelinha. No meu tempo de menina senhora mandava vir da cidade o padre para rezar missa, e de tarde ela sentava rodeada de crianças para assistiras danças”.

Os preparativos para a festa começam meses antes, tendo cada igreja um grupo de pessoas que a organizam. Na Capela Bela Cruz, é encargo atualmente de uma diretoria auxiliada por moradores do local e da sede do Município. Essa diretoria é eleita pela comunidade frequentadora da Capela Bela Cruz, por um período de dois anos, e constituída por presidente, vice- presidente, tesoureiro e conselho fiscal. Na outra igreja, “dos brancos”, a organização se dá a partir de dois casais de festeiros, contando também com a colaboração de um grupo local. Dessa forma, as festas ainda hoje são organizadas separadamente.

No sábado que acontece a festa, o barracão pertencente a capela da Bela Cruz, o “barracão dos negros’, já se encontra agitado desde o início da tarde. Homens se preocupam, principalmente, com as bebidas e com a acomodação das mesas. As mulheres são vistas principalmente na cozinha, preparando as comidas que serão consumidas no baile, á noite, e no dia seguinte. E também na capela, ornamentando-a, com flores e ramos,tarefa com muito cuidado e dedicação.

Embora as festividades em comemoração a Santa sejam no domingo, a festa em si começa ao anoitecer de sábado, com a chegada de pessoas do local esperando amigos e parentes que vem de longe para a festa e, especialmente, para o baile que ocorre nesta noite. São comercializados pelos festeiros, bebidas , doces, churrasco, almoço com variadas saladas e uma variedade de artesanatos e novidades, de pessoas da cidade e muitos ambulantes de fora que vem para trabalhar na festa.

São dezenas de ônibus vindos de várias cidades do Estado principalmente da região metropolitana  de PAO, foguetório anuncia a chegada dos grupos, os encontros e reencontros se tornam momentos emocionantes. Parentes e amigos se abraçam numa alegria contagiante, pois além dos turistas  e da comunidade rio-pardense, a grande maioria dos visitantes são descendentes do Rincão que somente nesta data retornam a terra natal. O Baile acontece no sábado à noite e no domingo à tarde, juntamente com apresentações artísticas no pavilhão ao lado da capela da Bela Cruz e é organizado pela diretoria.

FONTE: Entrevista Jacira Souza ex- escrava, ao jornal de Cachoeira do Sul, 1952.

 

FESTA DE NOSSA SENHORA IMACULADA DA CONCEIÇÃO

 Festa de nossa senhora imaculada da conceição acontece todo o ano no mês de dezembro na localidade de Arroio das Pedras interior de rio pardo, no assim chamado rincão dos negros ou dos pretos.  Este local por se originar de uma doação de terras, em testamento, feita pela fazendeira Jacinta Ana Maria Jesus de Souza, antes de sua morte em favor de seus 87 escravos, A partir desta força étnica cultural que possui o Rincão é que nasce a Festa de Nossa  Senhora da Imaculada Conceição.

A existência de duas capelas, lado a lado a menos de 20 metros uma da outra; “a dos brancos”, Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição e “a dos negros” Capela da Imaculada Conceição.

A Festa através de seu aspecto simbólico possibilita que estigmas, pré-conceitos e outras formas de discriminação racial sejam,  ritualisticamente, dramatizados, de modo que possam se tornar estratégias de sobrevivência, ou mesmo de resistência. O Rincão, sua festa seu povo, se constituem um referencial cultural onde outras comunidades de negros ou mesmo outras etnias, podem se reconhecer, já que, de modo geral, a historiografia” oficial” não dá atenção a estes fatos. Pode se encontrar, nesse lugar, exemplo de construção da História de uma comunidade que a cada ano reverencia seu passado e utiliza sua identidade étnica, selecionando ressemantizando elementos que lhes são significativos.

A festa é uma tradição anual que acontece no dia consagrado á Santa, oito de dezembro. Porém quando este dia não cai em  um domingo à festa é transferida para o próximo fim de semana. Hoje a festa quando este dia não cai em um domingo à festa  é transferida para o próximo fim de semana. Hoje a festa  inicia na sexta feira e se estende até o anoitecer do domingo. A festa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, vem acontecendo à muitos anos embora os moradores não saibam precisar á quanto tempo a festa acontece. Na verdade pelo relato da senhora Jacira de Souza, uma das escravas da Dona Jacinta, em entrevista ao Jornal do Povo de Cachoeira do Sul, em 1952, a festa remontaria o período escravocrata.

FONTE: Entrevista Jacira Souza ex- escrava, ao jornal de Cachoeira do Sul, 1952.

HISTÓRIA DO RINCÃO DOS NEGROS

 2ª   Parte       RINCÃO DOS NEGROS


...Em 1941 uma grande enchente de 41 dias e 41 noites , arrasa o Rincão e as plantações dos fazendeiros negros e brancos foram destruídas .O banco que havia financiado o plantio de arroz tomou dos agricultores quase tudo o que eles tinham principalmente animais e ferramentas. Com a impossibilidade de plantar, dois anos depois o negro, Sr. Estevão acabou vendendo “de língua” mais de quinze hectares de suas terras para Alvino Panta por “16 contos de réis”, assim como seu tio Doca e outros. Segundo dona Dorva negra moradora do Rincão, o Alvino Panta “tontio todos eles para poder comprar estas terras”. Então surge o nome Rincão dos Pantas, ainda hoje moram descendentes da família Panta no local com grandes extensões de terras. Foram anos de lutas e disputa de terras entre negros e os Pantas, guerras até com mortes, os negros queriam de volta suas terras e até hoje buscam seus direitos na justiça. O grande idealizador das emboscadas sofridas pelos negros era o Sr. Fernandes Panta.

A materialização dessa luta discriminatória, intolerante por demarcação de espaços não apenas territoriais geográficas, mas simbólicos, foi à construção de uma outra capela , maior e imponente, com uma torre majestosa resguardando um sino, a menos de uma outra capela da Bela Cruz e tendo por padroeira a mesma santa, para acolher fiéis brancos. Tal igreja, construída no início deste século era mais uma tentativa de intimidação e uma clara demonstração de força e poder de donos de terras brancos, bem como um símbolo de apropriação do território até então dos negros. Por muito tempo fica separado o rincão, os brancos na sua igreja e os negros na sua capela. Branco na dos Brancos e negros na dos negros.

“ Com a morte da Jacinta , a terra ficou para os negros. A família Panta, que possuía fazenda lindera,não aceitou a decisão e tentou de diversas formas retirá-los do local.Para tento reuniram 400 homens armados e ameaçavam invadir as casas durante a noite. Muitos negros morreram tentando defender suas casas. A resistência era liderada pelos irmãos Mantoca e Maneco Prudêncio. Um dia, a fechadura da igreja dos brancos emperrou e Mantoca ultrapassou a cerca para ajudar a abrir a porta. No dia seguinte, foi morto por alguns brancos.

Poucos negros descendentes dos 87 escravos possuem atualmente terras no local. Os demais se espalharam por várias cidades ao redor, mas grande maioria teria migrado para Porto Alegre, em busca principalmente de emprego, estabelecendo em bairros originariamente com predominância negra, como o Partenon ou Vila Jardim,logo depois para a região Metropolitana . Destas localidades partem todos os anos caravanas com ex-moradores e descendentes do Rincão dos Pretos, para participarem da Festa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, que acontece no mês de dezembro. Um tradicional evento religioso e cultural integrado entre as duas Capelas, entre brancos e negros todos tem acesso as igrejas independentede raça , mas os negros organizam de um lado ( Capela Bela Cruz) e os brancos organizam do outro.( N. S. Conceição). O Rincão dos Negrosou dos Pretos é um local de referência para a cultura negra de Rio Pardo bem como do Estado do RS, no rincão podemos sentir a presença da história dos fatos e das lembranças vivas no olhar nos costumes no jeito de ser dos moradores do lugar.

FONTES: Dissertação de mestrado de Rui Leandro da Silva Santos/ UFRS; Dados organizados pelo Departamento da Cultura Negra de Rio Pardo, Secretaria de Turismo e Cultura, Zero  Hora, 03.11.1991, p.55

 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

HISTÓRICO DO RINCÃO DOS NEGROS

1ª Parte      RINCÃO DOS NEGROS  

Autor: Padre Back


O Rincão localiza-se a 35 km da sede do Município, tendo acesso por uma estrada não asfaltada e servida de uma linha diária de ônibus coletivo. Trata-se de uma região com vocação histórica voltada para a agricultura, necessitando de grande quantidade de mão de obra escrava, no período escravocrata, e mesmo depois dele, para suprir a demanda da grande quantidade de fazendas  existentes. É nesse cenário de uma grande fazenda que nasce o Rincão, sendo no percurso de sua história vários nomes, sendo o mais significativo “Rincão dos Pretos”.

A história do nome deste lugar, ao longo do tempo, já conta um pouco do percurso dos escravos da Fazenda Jacinta Ana Maria Jesus de Souza. Por ser de propriedade da família Souza, esse lugar era chamado antigamente de Rincão dos Souzas. Esta senhora rica , solteira e sem filhos, antes de morrer, alforriara os seus 87 escravos e deixara a metade de sua fazenda e uma afilhada e a outra metade para seus escravos.

A religiosidade de dona Jacinta fez com que ela mandasse fincar no alto de uma coxilha, bem próximo a sua casa , uma possante cruz de madeira, no local onde as missas eram rezadas, em volta da qual, após sua morte, os negros ergueram uma pequena capela, denominada por eles de Capela da Bela Cruz, tendo por padroeira Nossa Senhora da Conceição.

Sobre o marco da porta central desta capela consta o ano de 1888 como data de sua construção até hoje muito simples. A partir de então o local passou a ser chamado de Rincão dos Pretos. Uma aldeia com expressivo número de moradores pretos descendentes de escravos que ainda hoje cultuam costumes dos seus antepassados. Aos poucos  um processo de expropriação, a quase totalidade das terras deixadas para os ex- escravos, após a morte da senhora Jacinta, foi parar nas mãos de poucos latifundiários brancos.  As terras do Rincão tinham como limites as terras dos Pantas. Muitos destes negros teriam vendido suas terras a um dos Pantas Sr. Alvino Panta, mas estas transações não aconteceram de forma legal, teria sido”tudo de língua, ou seja, não havia escritura em cartório de registros de imóveis. 

terça-feira, 19 de novembro de 2024

HISTÓRICO DO CONCURSO DA "BELEZA NEGRA DE RIO PARDO"

 História do Concurso “BELEZA NEGRA DE RIO PARDO

E do Primeiro Grupo de Danças Afro da Cidade.

 

           Rio Pardo – 25- 05 – 2008

No ano de 1988 foi lançado em Santa Cruz do Sul o primeiro Concurso da Mais Bela Negra gaúcha. Recebemos convite para participar com uma candidata, levamos duas: Carmem Maria Bandeira e Rosilene Franco dos Santos. Evento muito bem organizado pelo grupo em convênio com a Prefeitura. Em maio de 1989, resolvi organizar um meio de acrescentar algo mais, além disso, para participar melhor as origens Negras. Foi fundado o Grupo “ARUANÃ. Com apenas 8 integrantes começamos a ensaiar os passos e coreografias variadas. Razão do nome Aruanã: Este nome significa negro forte e destemido, palavra do dicionário “nagô”. Então foi determinado que seria grupo afro brasileiro, pois, apenas uma das apresentações que eram feitas, tinha uma entrada feita com acompanhamento de atabaques em ritmo de afoxé. O Restante das apresentações eram com gravações de fitas baianas, Daniela Mercuri, Leci Brandão, Olodum e outros.  O Grupo cresceu muito, fizemos apresentações em muitas escolas da cidade, fomos em muitos eventos dos Vales, bailes, jantares, etc..O Primeiro Concurso Beleza Negra foi realizado na pequena sede, as candidatas eram as jovens do próprio grupo, a casa ficou pequena para aquela noitada, a comissão julgadora avaliou a dança, simpatia e desfile. A Vencedora foi: Joelma / Princesa: Ângela Maria / Simpatia: Carmem Maria Bandeira. No ano seguinte o concurso teve a participação da Secretarias Municipal de Turismo. José Carlos Salgueiro e Arildo Rosa pediram nossa orientação e participação. As inscrições eram abertas. Como o evento foi no ginásio Guerinão, tinha que ter coquetel, ficando por nossa conta. Recebemos os ingredientes e fizemos coquetel afro, com os pratos: Abere um, muqueca, acarajé; e como bebida, uma talha de aluá, também tinha amalá. A Vencedora foi uma moça de Cachoeira do Sul/ Primeira Princesa: Fabiana de Ramiz Galvão / Segunda Princesa: Uma Irmã da Daniela Ramos (Denise Ramos). Para diminuir esta narração, vou simplificar: tivemos mais três concursos, um foi na Igreja Evangélica da Matheus Simões feito pela Velha Guarda, outro novamente na sede e o outro em convenio com as entidades carnavalescas, e, só participou os Irmãos Coragens, Realeza da Vila e Velha Guarda. Poucas candidatas participaram, porque, em Rio Pardo não existe colaboração para com os outros eventos se não houver a certeza de bom lucro, além da falta de bom senso e compreensão em relação a isto; aqui não são colaborativos, cada um por si. Como não tínhamos apoio do governo local, não andou quase nada os movimentos em relação ao negro no município. Jardelina Bandeira e Estone Bandeira fizeram o possível, mas, os próprios negros não estavam nem ai para o que eles desejavam. O Grupo de Danças Afro Brasileiro se apresentou até 2004, dei um tempo por motivos familiares, tenho todas as indumentárias estocadas, pois, quem fazia toas elas era eu mesma. Em uma destas apresentações participamos da abertura do Jornal do Almoço em Estrela, abertura da Festa das Etnias, em Lajeado foi a mesma coisa. Posso estar faltando com algum relato, mas é muita coisa para contar. Fico grata por poder colaborar, se puder darei mais alguma coisa. Grata.

Maria da Glória dos Santos (Gogóia)

FONTE: Escrito por: Maria da Gloria dos Santos (Gogóia) em 25 de maio de 2008.

OBS: Material Escrito á punho pela Autora e doado ao Movimento Negro de Rio Pardo.Texto Digitalizado por Betinho Moreira tal qual a autora escreveu. Objetivo: Perpetuar a História e Cultura do Concurso Beleza Negra de Rio Pardo, bem como da Dança Afro local.

 

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

NOVO FERIADO NACIONAL DO BRASIL

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA  20/11/2024


 A Lei 14.759/2023 instituiu o Dia da Consciência Negra como feriado nacional no Brasil. A lei foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União em 21 de dezembro de 2023.

 A data é comemorada no dia 20 de novembro e homenageia a morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, em 1695. O Quilombo dos Palmares foi o maior da história do Brasil e resistiu à escravidão por quase um século. 

O Dia da Consciência Negra surgiu no contexto dos movimentos negros das décadas de 1960 e 1970, quando ativistas e organizações lutavam por reconhecimento das contribuições afro-brasileiras e por maior representatividade. 

A Lei 14.759/2023 é o primeiro novo feriado nacional desde 1980, quando o 12 de outubro se tornou data comemorativa. A Lei 14.759/2023 instituiu o Dia da Consciência Negra como feriado nacional no Brasil. A lei foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União em 21 de dezembro de 2023.

Fonte:  Dados da Internet 


ATA DE EMANCIPAÇÃO DE ESCRAVOS - TRANSCRIÇÃO


ATA DE TRABALHOS DE EMANCIPAÇÃO  DE ESCRAVOS

Às dez horas da manha do dia nove de julho de mil oito centos e setenta e três reunida a junta de emancipação, na Casa da Camara Municipal desta Cidade de Rio Pardo foi a mesma informada de haverem neste município alguns indivíduos escravos de ambos os sexos com cotas para sua libertação, passa a junta por isso a fazer suas indagações para verificação se é exato do que se lhe e ainda não tendo sido informada pelo escrivão Eclesiástico quais os escravos casados com filhos e escravos de oito anos de idade e vinte e um sendo livres para regularidade dos trabalhos não inscreve no livro competente os nomes daqueles escravos que se dizem terem suas cotas porque prefere na ordem da libertação os casados com filhos e escravas e livres como já se disse. Assim houve a mesma junta terminada os seus trabalhos de hoje. E para constar mandou o presidente da junta lavrar esta ata por mim Manoel Joaquim Côrrea Vasques escrivão do juízo de Paz que a escrevi sendo assinados por todos os membros da junta.

 Ass.: Francisco Antonio de Borba, Hermes, João Eduardo. 

FONTE:TRANSCRIÇÃO DO Lv..LAJEE  N 23/330    1873/84  Pg.2